30
Set 12

Fish Tank ou 'O aquário' em português, filme britânico realizado em 2009 por Andrea Arnold (a mesma que realizou o último Wuthering Heights em 2011) é um drama que, ao contrário do que imaginava quando comecei a ver, até se vê bem. Tem uma história original, acho eu, e conta com o protagonismo de uma autêntica desconhecida e inexperiente em termos de actuação, a jovem Katie Jarvies (no papel de Mia Williams) que, a meu ver, tem uma interpretação muito boa.

Claro que também lá temos Michael Fassbender e confesso que foi a participação dele que me levou a ver este filme, em primeiro lugar. Ok, sou fã do senhor!... Pronto, lá disse!

 

O filme conta então a história de Mia, uma jovem de 15 anos, que vive com a mãe e a irmã num bairro social degradado. As três são completamente disfuncionais, tratando-se pessimamente mal umas às outras, com imprecações constantes e totalmente desprovidas de afecto mútuo visível. Mia adora dançar música rap e para isso refugia-se num apartamento abandonado onde treina incansavelmente, inclusivamente para um concurso de dança a que se candidata. Até que um dia, a mãe traz para casa um namorado, Connor (Michael Fassbender). A atração de Mia por ele é imediata e, lentamente, Connor vai lhe mostrando que também ela o atraí. Ora, isto coloca-nos perante uma relação que poderá ser apelidada de pedofílica. 

 

O relacionamento deles continua sempre muito subtil, vivendo de olhares e cumplicidades e só por uma vez presenciámos contacto físico. A mãe de Mia parece não se dar conta do que acontece mas, ao mesmo tempo, suspeitámos que ela talvez saiba de alguma coisa e daí os ciúmes e hostilidade que sempre demonstra pela filha mais velha. Claro que, depois da relação deles se ter tornado fugazmente física, tudo muda. Connor vai embora e Mia decide segui-lo e é então que vai descobrir toda a verdade acerca da vida perfeita dele.

 

Gostei. Tem um rank de 7.4 no site do IMDb o que já diz muito sobre a sua qualidade e aceitabilidade. Penso que não foi tão bem aceite nos festivais de cinema mas isso não lhe tira o proveito de ser um bom filme.

 

publicado por Sandra F. às 22:29

12
Set 12

Como muita gente pensou e muita gente escreveu, já ia sendo hora de dar um óscar como prémio pela sua brilhante carreira a este senhor chamado Colin Firth. Ganhou-o, para satisfação de muitos, com este filme que nunca me despertou muito mas que acabei por ver e gostar.

 

 "Um filme que nos eleva o espírito", diz ali na imagem promotora deste filme. Pode até ser. Eu confesso que me senti meio angustiada durante a maior parte do filme e sempre que Georgie tinha de fazer algum discurso ou então tentar ultrapassar esse medo, eu ficava com um nó no estômago que não me permitia nada mais do que sentir uma valente pena por aquele homem. Até as outras pessoas que assistiam a essa dificuldade discursiva se sentiam visivelmente embaraçadas pelo seu rei. Depois (talvez por isso lhe tenham dado o óscar) consegue-se sentir perfeitamente a angústia dele e sempre que a sua boca tardava a emitir um som, dava comigo a torcer por ele e a admirar aquela grande actuação. Segundo a Wikipédia, a rainha Elizabeth II quando assistiu ao filme disse ter ficado emocionada com a interpretação que Colin Firth fez do seu pai.

 

George VI foi rei de Inglaterra e pai da actual rainha Elizabeth II. Chegou ao trono quando o irmão Edward VIII abdicou do mesmo para casar com a americana Wallis Simpson. Tinha, no entanto, um grave problema que o afligia desde a infância e com o qual via extremamente dificultada a sua função de monarca: era gago. 

 

O filme conta então a história verdadeira de como o rei (interpretado por Colin Firth) ultrapassou esse problema, governando o seu país até à sua morte aos 56 anos. Para isso contou com a ajuda de um fonoaudiólogo, Lionel Logue (Geoffrey Rush), que o ajudou a superar o problema e de quem se tornou amigo até ao fim dos seus dias.

 

 Este filme ganhou sete prémios BAFTA e quatro óscares (melhor filme, melhor realizador, melhor actor e melhor argumento original). Além de Colin Firth e Geoffrey Rush, podemos ver também Helena Bonham Carter (no papel de esposa do rei) e Jennifer Ehle (no papel de esposa do fonoaudiólogo).

 

 

publicado por Sandra F. às 19:43

11
Set 12
Thomas Hardy é um autor que aprecio muito, embora nunca tenha lido nenhuma obra sua. Nenhuma está traduzida para português e falta-me a coragem para me embrenhar nelas em inglês, dada a complexidade linguística muito ligada a um inglês 'antigo' e ruralizado.

 

Tenho no entanto visto algumas adaptações das suas obras para televisão. As mais conhecidas, entre muitas, figuram entre:

-Under the Greenwood Tree (1872) http://booksandmovies.blogs.sapo.pt/67143.html

- Far from a madding crowd (1874)

- Tess of the d'urbervilles (1891) http://booksandmovies.blogs.sapo.pt/8958.html

- Jude the obscure (1895)

 

Aqui há uns dias vi a adaptação de 1998 de Far from a madding crowd. Andava ansiosa para a ver já há algum tempo. No entanto, via pequenas partes e as imagens pareciam-se sempre tão escuras que isso me desanimava sistematicamente. Mas um dia, lá me decidi a ver. E, quando pensava que ia ver um filme com a duração normal dos filmes, 'suportei' aquilo por quase mais de três horas. Foi, todavia, um 'suportar' muito positivo, caso contrário teria deixado para outro dia. No final, queria mais! Foi uma tarde bem passada! E ficou curiosa para ler o livro.

 

A história fala de uma mulher (Bathesba Everdene) por quem Gabriel Oak, um pastor, se apaixona e a quem pede casamento. Ela recusa pois não se descobre apaixonada por ele. Tempos depois, Bathesba fica rica ao descobrir que o seu tio lhe deixou a sua fazenda. Lá, começa uma nova vida, tentando provar aos seus empregados que, apesar de mulher, é capaz de administrar a fazenda. Entre os empregados surge Gabriel que, depois de perder a sua propriedade, vagueia sem emprego ou residência. Ela acaba por contratá-lo depois de ele evitar um incêndio grave num dos seus celeiros.
Bathesba e Gabriel
 
Gabriel continua apaixonado por ela. Mas não se atreve a avançar novamente porque ele agora é um simples empregado e ela a sua patroa. Isto apesar de Bathesba ser daquelas patroas que não tem medo de sujar as mãos juntamente com os seus subalternos e, por isso mesmo, começa a ser admirada por todos. Com o decorrer da história aparece William Boldwood, um proprietário rico e solteiro, porém muito mais velho que ela, que por uma brincadeira no Dia dos Namorados acaba enamorado de Batsheba. Acaba também por pedi-la em casamento mas ela recusa, insegura mais por causa da idade dele. Pelo meio, temos ainda o sargento Francis Troy, um atraente soldado que regressa a casa e seduz Bathesba, com quem acaba por casar. Troy apesar de parecer um conquistador insensível que chega a destratar psicologicamente Bathesba, tem no entanto uma história desconhecida bonita e que vai terminar de forma trágica. Bathesba age honestamente e de acordo com a sua personalidade doce até ao fim, mesmo depois de ter sofrido às mãos do marido e das repercussões do seu passado.
 
Entre mais um ou outro pequeno pormenor importante, esta é mais ou menos a história de Far From a Madding Crowd. O que achei mais interessante foi o facto de Gabriel Oak assistir a todas estas vivências de Bathesba sempre na sombra, aconselhando-a ou repreendendo-a quando possível, e assistindo à sua fúria quando ela não estava de acordo com as ideias dele sobre o que se passava na sua vida. Claro que no fim, vence o amor... depois de algumas tragédias. Ficou-me no entanto uma questão à qual provavelmente só obterei resposta se ler o livro: teria Batsheba repudiado Gabriel por ele ser de uma condição social inferior ou apenas porque não aceitava o seu amor tão devoto e fiel?
 
Esta versão de 1998 é bonita apesar de não ter uma qualidade de imagem muito boa. Conta com as participações de Paloma Baeza (Batsheba Everdeen), Nathaniel Parker (Gabriel Oaks), Jonathan Firth (Francis Troy) e  Nigel Terry (William Boldwood). Há ainda uma versão de 1967 com a Julie Christie que não vi mas que dizem inferior a esta de 1998, apesar de ter estado nomeada para um óscar e outros prémios.
 
Deixo um vídeo (com direito a música) que mostra algumas das cenas entre Bathesba e Gabriel.
  
publicado por Sandra F. às 19:37

10
Set 12

 "History has a habit of repeating itself" - says the Fallen Angel, Azazeal.

 

Ora, considerando que é uma série relacionada com o sobrenatural (não, nada de  vampiros!) mas também um drama assim para o romântico, temos sobretudo de valorizar esta série pela presença daquele que começa a ser um grande senhor dentro do meu rol de actores favoritos, Michael Fassbender.

  (Sorry, mas tive de colocar uma foto do senhor. Mais seguirão, claro, mas são profissionais).
 

Esta série, com apenas cinco episódios (o primeiro é grandito), conta-nos a história de Cassie Hughes (Christina Cole, a Blanche Ingraham em Jane Eyre 2006, Mrs Elton em Emma 2009 e Caroline Bingley em Lost in Austen 2008), uma jovem estudante de uma escola situada numa antiga mansão inglesa. Cassie é bonita mas tímida e aparentemente deslocada pois não consegue conquistar o seu espaço no meio estudantil, sendo por muito ostracizada e até gozada. Tem, no entanto, uma amiga fiel e devota, Thelma (Jemina Roper, a Amanda Price de Lost in Austen) que, sendo lésbica, está apaixonada por Cassie. No entanto, esta nunca lhe deu esperanças e por isso, cultivam apenas uma boa amizade.

 

Ora, nesta vida aparentemente tranquila de estudante, eis que subitamente Cassie começa a ter visões estranhas e poderes telecinéticos. Começa também a notar um homem que a observa sempre à distância. O homem é extremamente bem parecido (está claro que é o Fassbender!), um homem que ela descobre ser Azazael. E a partir daqui começa toda uma história que gira em torno de anjos caídos e de histórias passadas em séculos atrás. 

 

Destaco:

 

- Michael Fassbender, of course! Quando ainda era um desconhecido. Ó homem lindo de morrer! Este é daqueles que nos desperta desejos animalescos (falo no plural para não ser demasiado evidente...). É bom actor, sim senhor, senão não teria chegado onde está agora. Mas tem cá uma senhora linda voz e um look que, enfim... Era o homem que eu escolheria para a minha história de amor numa outra dimensão. No entanto, falha-nos ainda compreender se ele é bom ou mau. Aquela cena de anjo caído está muito mal contada. Todavia, ele é tão doce com Cassie que até nos dá pele de galinha. E tal como nós, ela não fica indiferente, apesar de tentar, coitada. 

 

- Christina Cole. Nunca fui grande fã dos papéis dela que assinalei em cima. Talvez porque sempre tenha feito papéis de mulheres arrogantes e más. E, apesar de ela aqui também ter uma fase em que faz de arrogante mas porque está enfeitiçada, a sua actuação no geral é muito boa e passei a gostar dela. E faz um bom par com o Michael Fassbender; penso que combinam bem os dois. Só é uma pena que a relação deles não tenha sido mais desenvolvida. 

 

Medenham Hall. Assim se chama a escola da série. Na realidade, trata-se de Englefield House, uma mansão de estilo tudor belíssima que nos transporta para as belas paisagens rurais britânicas. Aparentemente foi onde também Michael Fassbender filmou X-men: Regresso às Origens.  

 

Tem uma segunda temporada. E ainda bem. Falta perceber que diabo se passa ali. Se o anjo caído é bom ou mau, se Cassie vai conseguir libertar-se daquele feitiço estranho e, sobretudo, onde pára o bébé. 

 

Segue um vídeo que nos mostra as melhores partes da relação de Cassie e Azazeal e que nos dá um vislumbre daquilo que é a história desta série. Tem continuação no youtube para quem estiver interessado. 

  

publicado por Sandra F. às 19:23

09
Set 12

E Bedlam retornou! Creepier than ever!

Não é daquelas séries que nos fique na memória durante muito tempo e que queremos voltar a ver com ansiedade. Mas é interessante enquanto se vê. E faz-nos saltar de vez em quando, especialmente quando pressentimos antes que algo vai acontecer ou algum dos fantasmas vai fazer o seu papel.

 

Esta nova temporada começa com a ausência sentida de Jed, o protagonista que acabou na primeira temporada de uma forma pouco compreensível (só quase no final desta sabemos o que realmente lhe aconteceu). Alguns dos outros personagens acabam também por desaparecer, seja pelo continuar da maléfica história, seja porque presumidamente continuaram com a sua vida em local diferente de Bedlam Heights.

 

Agora temos Ellie, uma paramédica que desde há uns meses consegue ver as pessoas mortas e a forma como morreram. Inexplicavelmente sente-se ligada a Jed Harper e é por isso que decide procurá-lo em Bedlam Heights, não sabendo que ele se encontra desaparecido. Ali faz, no entanto, algumas amizades e quando começa a ver alguns dos fantasmas do edifício e a conseguir resolver os seus problemas, opta por ficar, esperando que assim consiga também resolver a confusão da sua vida pessoal. Entre esses fantasmas encontra-se Eve, uma menina que, não fazendo mal a ninguém, parece querer orientar Ellie na sua busca pela resolução dos mistérios de Bedlam.

 

Parece bonito e é! Mas é necessário contar com os fantasmas. Alguns são assim para o assustador e têm umas expressões mesmo atormentadas. Descansa-nos saber que eles são isso mesmo: almas atormentadas que procuram apenas o seu lugar no infinito. E depois há Joseph, The evil Mastermind! Oh Homenzinho difícil de mandar para o outro lado!

 

 

 

publicado por Sandra F. às 19:04

03
Set 12

"I promise, I'll come back for you. I promise, I'll never leave you."

Count Lázló de Almási para Katherine Cliffton

É uma vergonha, eu sei! Eu, uma apaixonada por cinema desde há muito tempo, nunca ter visto este filme. Se me batessem, eu acharia justo!

 

Ponho-me a pensar porque nunca o vi e, entre indisponibilidades várias na altura em que foi lançado em Portugal, ocorre-me a principal razão porque nunca mais tive curiosidade para o ver. Eu sou uma romântica. Ou melhor, não sou mas gosto de filmes com romance e drama e no fundo, por muito que eu diga que gosto de um final original, sem o usual happly ever after, a coisa perde um pouco o interesse quando isso acontece. Muito mais, quando já sabemos desde o início do filme como tudo vai terminar.

 

O Paciente Inglês (The english patient, no original de 1996) é lindo! Eu não gosto muito de usar este adjectivo. Mas aqui tenho de o fazer, sem receios nem hesitações. Recebeu nove óscares da academia em 1997, incluindo o de melhor filme, melhor realizador (Anthony Minguella) e melhor actriz secundária (Juliette Binoche). Mas isso nada quer dizer, apenas vem provar que a crítica e outras pessoas também apreciaram o filme. 

Para quem não conhece, O Paciente Inglês conta uma história inesquecível passada durante a segunda guerra mundial. Logo no início do filme, assistimos ao abater de um pequeno avião, sobre o deserto do Sahara, que leva uma mulher e um homem. O homem é visivelmente atingido pelas chamas ao mesmo tempo que aparentemente tenta salvar a mulher. Depois vêmo-lo muito queimado na parte superior do corpo a ser cuidado por homens muçulmanos e, logo depois, já com as feridas cicatrizadas mas muito desfigurado, a ser cuidado por soldados britânicos, especialmente por Hana (Juliette Binoche), uma enfermeira muito dinâmica e muito humana. Esse homem é o Conde László de Almásy (interpretado por Ralph Fiennes) e ao vê-lo ser constantemente martirizado com mudanças desnecessárias e algo deprimida por ter perdido algumas pessoas importantes para si nos conflitos, Hana decide ficar numa velha igreja abandonada que encontram. Aí dedica-se a cuidar do seu paciente e simultaneamente ele vai contando a sua história e ficámos então a conhecer a sua identidade, a identidade da mulher no avião, o que os levava a sobrevoar o deserto naquela altura e o seu passado.

 

E por aí adiante. Só vendo mesmo. Uma verdadeira história de paixão, de intriga, aventura mas também uma história triste e dramática. A contracapa do dvd que tenho comigo diz que é "um filme de grande fulgor romântico,... um poderoso triunfo cinematográfico que vai recordar como um dos melhores filmes de sempre". E eu acredito que sim e revejo-me totalmente nessa opinião.

 

O filme é baseado na obra de Michael Ondaatje (1992) com o mesmo nome. Um livro que lerei, com toda a certeza.

 

E não posso deixar de comentar que gostei muito da escolha dos actores principais. O Ralph Fiennes é um dos meus actores favoritos desde que o vi no Wuthering Heights de 1992 (o mais perfeito Heathcliff que já vi!) acompanhado também da actriz Juliette Binoche que interpretou Cathy Hearnshaw/Linton. Voltaram a encontrar-se aqui, no Paciente Inglês, não como par romântico, mas absolutamente incríveis nos seus papéis. (E a falar nisso: porque não deram um óscar ao Ralph Fiennes pela interpretação do Conde László de Almásy?) No entanto, o filme conta ainda com as interpretações de Kristin Scott-Thomas, Willem Dafoe, Naveen Andrews e Colin Firth, este último acabadinho de sair das filmagens de Pride and Prejudice da BBC em 1995. 

 
"My darling. I'm waiting for you. How long is the day in the dark? Or a week? The fire is gone, and I'm horribly cold. I really should drag myself outside but then there'd be the sun. I'm afraid I waste the light on the paintings, not writing these words. We die. We die rich with lovers and tribes, tastes we have swallowed, bodies we've entered and swum up like rivers. Fears we've hidden in - like this wretched cave. I want all this marked on my body. Where the real countries are. Not boundaries drawn on maps with the names of powerful men. I know you'll come carry me out to the Palace of Winds. That's what I've wanted: to walk in such a place with you. With friends, on an earth without maps. The lamp has gone out and I'm writing in the darkness." 
Written Katherine's words to Almási before she dies
publicado por Sandra F. às 23:59

01
Set 12

Para quem, como eu, é fã incondicional e vitalícia de North and South da escritora britânica Elizabeth Gaskell (1810-1865) e ainda de Orgulho e Preconceito da também britânica Jane Austen (1775-1817), este livro é uma verdadeira benção e uma das melhores surpresas que tive nas minhas férias.

 

Segue um resumo da história:

 

"Estamos na década de cinquenta e a família de António do Couto Maia deixa Lisboa para se fixar em Moura, no Alentejo. A decisão é do chefe de família e surpreende tanto a mulher como as filhas, que não compreendem o que leva um homem de meia-idade a abandonar subitamente a sua confortável vida na capital para mergulhar num Alentejo desconhecido. É através do olhar inquiridor de Isabel, a filha mais velha, que assistimos ao conflito entre dois mundos: o da cidade, representado pelos recém-chegados, e o mundo rural, que os recebe com desconfiança. Inicialmente atraída pela beleza da vila alentejana, a jovem é confrontada com a prepotência dos senhores e com a miséria dos camponeses, num lugar onde qualquer tentativa de mudança é imediatamente esmagada. O seu sentido de justiça leva-a a colidir com Eduardo Leôncio Teles, o herdeiro da maior fortuna da região, iludindo, assim, a forte atracção que sente por ele. Ao mesmo tempo, Isabel envolve-se nos acontecimentos da vida rural, enquanto tenta descobrir o segredo que levou o pai a esconder-se no Alentejo, arrastando a família para uma existência tão difícil."

 

Foto Daqui retirada

 

Foi para mim um prazer enorme, ao ler a história, deparar-me com personagens, situações e até diálogos que me faziam recordar a obra de Gaskell ou de Austen. Sorria, pois pensava 'esta parece-me a Lady Catherine de Bourgh... ou será Hannah Thornton?'. O pai da protagonista, António do Couto Maia, é uma homenagem a Mr Hale (tirando o final trágico...) e a mãe tem um pouco de Mrs Bennet e um pouco de Mrs Hale... Eduardo Leôncio Teles é um misto delicioso de John Thornton e de Fitzwilliam Darcy e Isabel Maria do Couto Maia tem traços de Elizabeth Bennet e muito especialmente de Margareth Hale, com aquele espírito sempre inovador, crítico e combativo. Mas isto são coisas que só um bom apreciador de North and South e de Pride and Prejudice perceberá com rigor. E a esses, eu aconselho vivamente, ou melhor, obrigatoriamente, a leitura desta história.

 

A semelhança de determinadas personagens e do decorrer da acção com as obras acima assinaladas não é depreciativo nem sequer desanimador. É, pelo contrário, aliciante, interessante e digno de um sorriso. E, porque a acção decorre no nosso Portugal reprimido dos anos cinquenta do século passado, a história torna-se muito mais adequada à nossa realidade lusa e com recurso a locais que tão bem conhecemos (ou pelo menos ouvimos falar) e admirámos no nosso Portugal. E não faltam as palavras que só recorrendo ao dicionário reconhecemos pois fazem parte dum português antigo, sulista e ruralizado. E depois o Alentejo! O lindo Alentejo com as suas paisagens, os seus montes, os seus campos, as suas gentes.

 

Queria muito especialmente deixar aqui uma ressalva para os últimos capítulos que são lindos. Aquele 'look back' que qualquer apreciadora de North and South reconhece, nesta história acontece desta forma:

 

"No momento em que lhe passava os documentos, os seus dedos tocaram-se ao de leve, não soube se por acaso, se intencionalmente. Ela agradeceu, quase sem voz, e entrou no carro de aluguel, após o que este partiu com um ruído estrepidoso. Eduardo ficou parado à porta, fixo no vidro traseiro do automóvel, enquanto este se afastava, e nesses últimos segundos de nitidez, antes de desaparecer sob a espessa cortina da bruma matinal, avistou o rosto pálido de Isabel a relanceá-lo pela última vez."

 

E há também a parte que eu achei mais bonita, e para essa não consigo encontrar semelhanças em nenhuma das obras, que é quando começa a dar-se o desfecho da história e se começa finalmente a perceber porque António do Couto Maia deixou Lisboa inexplicadamente:

 

"As duas ficaram ali, quietas, cada uma no seu lugar, imersas num silêncio glacial. A porta ficara escancarada, da rua vinha o assobio do vento que penetrava na casa, fazia levantar as cortinas, os pratos trepidar nas paredes e os candeeiros balançar fantasmagoricamente. Quando a mãe se levantou para fechá-la, petrificou debaixo da ombreira até lhe nascerem do fundo dos pulmões gritos estridentes, a chamar pela filha, como se lhe estivessem a arrancar o coração do peito. A rapariga chegou  ainda a tempo de ver dois indivíduos a empurrar António para dentro de um automóvel preto. A garrafa de vinho que trazia nas mãos caiu desamparada e estilhaçou-se contra a berma do passeio, esplhando-se o tinto na calçada cã, a mancha sanguinolenta escorrendo profusamente pelo passeio abaixo, enquanto o ruído do motor tomava o ar e lhes enchia as almas de profundo horror. Nesse instante, a mente de Isabel fechou-se a tudo o que a rodeava, um choque súbito de adrenalina percorreu-a de alto a baixo, como uma descarga eléctrica, e impulsionou-lhe as pernas para a frente, atrás do carro. O sangue fervia-lhe por baixo da pele, transformando-a num motor em combustão. O estrépido do automóvel a guinar de curva em curva não era comparado com o rugido de fúria que saía dela. A ventania cortante esbofeteava-lhe o rosto, mas ela nada sentia, só a pernas a moverem-se numa corrida desenfreada, os calcanhares a baterem violentamente contra a terra, percorrendo a estrada que cortava a vila ao meio até à orla, onde a paisagem sulcada de montes sem fim, engolia qualquer ser vivo à vista. Que podia fazer? Como poderia ela alguma vez alcança-los só com aquela explosão instantânea de força? O fôlego sumia-lhe dos pulmões e a garganta ardia-lhe de tanto se forçar a inspirar os escassos golpes de ar. Deixassem-na ao menos despedir-se. Contra a sua vontade, as pernas começaram a ceder e a velocidade da sua corrida a diminuir. O intervalo entre os arquejos era tão curto que toda a energia do corpo era insuficiente para continuar a respirar e a correr ao mesmo tempo. Por fim, tropeçou nos próprios pés e caíu redonda no chão, as lágrimas caindo-lhe em cascatas dos olhos. O automóvel galgava os montes, ficando cada vez mais distante, pequeno como uma barata, até desaparecer para lá dos limites da paisagem visível. O ruído do motor abafou-se na morrinha. Tinham-no levado. Assim, sem mais nem menos. Esqueçam-se as formalidades, os avisos, as explicações, simplesmente tinham-no detido e sequestrado, como se uma pessoa fosse um objecto de ninguém que podiam pegar e levar com eles, conforme lhes aprouvesse. A nortada fustigava-lhe o corpo fatigado, empurrava-a na direcção contrária, na direcção da casa, para onde teria de regressar de mãos vazias. Voltou costas e começou a andar. Estava a entrar na vila quando ouviu um relinchar ao longe. No topo do cabeço mais alto, recortado a contraluz, vislumbrou um cavalo e, montado nele, Eduardo. Ficou parado durante uns segundos, contemplativo, imune à borrasca, depois girou a cabeça na direcção da estrada, esticou as rédeas, deu meia volta e afastou-se a trote, desaparecendo na encosta, do outro lado do monte. Teria ele visto a cena toda desenrolar-se? Isabel praguejou, amaldiçoou-o, mandou-o às figas, importava-se lá ele, devia estar todo roído, como todos os homens rejeitados."

 

Além Tejo é definitivamente uma história digna de leitura, e no meu caso, de releitura pois seguramente vou voltar ao Alentejo, à Vila de Moura e à vida de Isabel e Eduardo, Inês e Pedro (não confundir com tempos monárquicos), Ana Maria e António, da dona Ercília, da Ernestina e do seu João da Mota, de Ricardo e de tantos outros personagens que tornam esta história um prazer seguro e delicioso.

 

O livro não é muito fácil de encontrar, infelizmente. Está à venda nas lojas Bertrand mas não em todas. Tive sorte e encontrei-o numa das lojas aqui do Porto mas isso foi só depois de as percorrer todas. Há dias, apercebi-me que já existe a versão Kindle, disponível portanto no site da amazon por cerca de 7euros (depende da taxa de câmbio, evidentemente). Segue o respectivo link para quem estiver interessado:

 

http://www.amazon.com/Al%C3%A9m-Tejo-Portuguese-Edition-ebook/dp/B008BIGQRE

 

Autor: Catarina Pereira Araújo

Data de Publicação: Setembro de 2008

Editora: Chá das Cinco

Páginas: 317

ISBN: 978-989-8032-37-9

publicado por Sandra F. às 00:20

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